O alagoense Jeremias Sene era tropeiro. Vendia os queijos além das montanhas da Mantiqueira e levava os queijos dentro de balaios de bambu no lombo dos burros. Seu bisneto, Osvaldo Filho, vende os queijos pela internet pra todo Pais, de Norte a Sul, e transporta via Correios, PAC ou SEDEX! Os meios de comunicação e de transporte evoluíram, mas o espírito de tropeiro é o mesmo.

Queijo Artesanal de Alagoa - MG

Uma fatia de História

Por Osvaldo Filho

Era uma vez... numa distante cidadezinha chamada ALAGOA (no singular), no alto da Mantiqueira, extremo Sul de Minas, existia um Coronel, por nome Porfírio Mendes Pinto que era um dos maiores produtores de leite dos arredores. 

O ITALIANO - Há mais de 100 anos, o Italiano Paschoal Poppa e sua esposa Luiza Altomare Poppa pisaram em solo alagoense. Os pastos verdejantes de Alagoa chamaram a atenção do italiano e se tornaram berço para as vacas leiteiras fornecerem a matéria-prima para o advento do delicioso queijo artesanal, só que um toque especial italiano.

 Paschoal Poppa instalou-se no Bairro Boa Vista, a 8km da Capela (hoje o Centro da Cidade), e com o sr. Gumercindo Ferreira Pinto movimentou os arredores com o feitio do queijo: soma da experiência italiana com os atributos naturais de Alagoa.

 MOVIMENTO DO LEITE - Firmando uma sociedade, os dois tocaram outros laticínios e movimentaram a produção leiteira de Alagoa, resultando em toneladas do queijo artesanal, feito até hoje com leite cru (não-pasteurizado).

 Conta-se que a Fábrica de Leite da Boa Vista era ponto de encontro dos fazendeiros, sitiantes, retireiros, ordenhadores que circulavam em meio aos cavalos, burros, mulas, e muitas latas de leite.

 Desde então, disseminou-se pelas montanhas alagoenses o costume de fazer queijo. O saber fazer é transmitido de pai para filho e assim sucessivamente. A tradição é uma das fórmulas que substanciam o delicioso paladar do queijo alagoense.

 DESVENDANDO A RECEITA - O segredo? Está incrustado na altitude das montanhas e na sensação térmica do clima de Alagoa. Não tem outra explicação: a topografia, o clima, a água, o tipo de pastagem, entre outras características peculiares, naturais e únicas formam o "tremruá" (palavra mineira que assemelha-se à francesa terroir) que resulta na singularidade do sabor do nosso queijo.

 Alagoa é a mais alta das Terras Altas da Mantiqueira. E são nestas montanhas elevadas (mais de 1.100m de altitude) que as vacas vivem e o leite é convertido no delicioso queijo de Alagoa. Em Parma a altitude média é de apenas 200m. As altitudes de Alagoa se igualam aos pré-alpes suíços.

 GOSTINHO DE QUERO MAIS - Para o Mestre Queijeiro Bruno Cabral: “o aroma e as características visuais são fantásticas! É um grande queijo artesanal, bem brasileiro, aromático, com aromas de ervas frescas e de lácteos. Sabor levemente picante e forte de gosto, intenso e persistente na boca. Realmente o queijo é surpreendente” relata.

 Para 1 kg de queijo gasta-se mais de 10 litros de leite. Normalmente os produtores de queijo usam formas de 1kg ou de 5kg.

 COMO FAZ? - Pensa que fazer queijo é do dia para noite? Não. O processo, da ordenha até a maturação, pode levar até um ano. Quanto mais o queijo fica descansando, mais maturado ele fica, conhecido como "curado". "Fresco" é quando ainda está bem macio e não pegou muito sal.

Geralmente os consumidores impacientes consomem “fresco” com 10 dias. Mas há quem prefira esperar o queijo ficar bem curado, a ponto de ralar, ou no ponto de cortar para comer com o pão, frito no arroz, na pizza, enfim, de diversas maneiras. Em lascas para harmonizar com vinho ou cervejas especiais.

FESTIVAL DO QUEIJO - Em Alagoa, todos que moram na zona rural tiram leite e fazem o queijo. Não é à toa que Alagoa é consagrada a Terra do Queijo.

A Lei Municipal 828/2010 instituiu o 4º sábado do mês de maio como o Dia do Queijo e do Queijeiro de Alagoa. O mês de maio é o início da época boa de tirar leite, e a realização de um Festival visa valorizar o queijo e o queijeiro, com palestras, divulgação e show gratuito a toda população.

CULTURA REAL - O queijo de Alagoa é patrimônio cultural municipal registrado no Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais - IEPHA. Além de ser nobre por Alagoa estar no Caminho Velho da Estrada Real.

SUSTENTABILIDADE - 100% do município de Alagoa está inserido em Unidades de Conservação, a saber: Área de Preservação Ambiental Federal Serra da Mantiqueira - APA Serra da Mantiqueira, no Parque Estadual Serra do Papagio e está no entorno do Parque Nacional do Itatiaia. Também integra o Corredor Ecológico Mozaico da Mantiqueira. E é neste ambiente super natural que o queijo é elaborado artesanalmente. 

NOME - O nome correto do Queijo Artesanal Alagoa é Queijo Alagoa. Apesar de ser conhecido como "Parmesão de Alagoa" ou "Parmesão da Mantiqueira" nosso queijo é artesanal, feito com leite-cru (não-pasteurizado), sem corante (no Brasil muitas indústrias usam urucum para dar cor ao queijo). O Queijo Alagoa é único, é impar, é singular.

Se estivéssemos na Itália poderíamos chamá-lo de Formaggio Alagoa. Como todo bom mineiro gosta de economizar nas palavras, fica mais fácil chamá-lo de QUEIJO ALAGOA.